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Belinha

 A Walther é quente, se pegarem você com ela vai respingar na gente, depois de fazer o serviço joga fora, na lagoa, ou no mar.

Pode deixar, eu disse, e o Despachante continuou, lembra da Glock e da merda que deu?, como se eu fosse esquecer o crioulo que fingia que morava nas pedras com as baratas mas não era do ramo e cheirava a sabonete perfumado e tinha um relógiogranfa no pulso e quando meteu a mão na cintura para tirar a ferramenta dei-lhe um tiro na cabeça e fiquei com a arma dele, uma Glock 18, automática, uma beleza, a melhor coisa que a Áustria deu ao mundo.  Mas era quente e quando me pegaram com ela me encheram de porrada, quebraram dois dentes aqui da frente e um dedo da mão, pois queriam que eu confessasse que tinha matado o crioulo e que se eu dissesse quem tinha me contratado eles aliviavam a minha barra, mas não abri o bico não confessei porra nenhuma.

Você não sabia quem era o mandante.

Pela vítima você desconfia quem é o mandante. É mole. Quer que eu diga o nome? Não fode, ô camaradinha, olha aqui os dentes postiços, a mão torta. Eu sabia, fui torturado e não delatei ninguém.

Eles quebraram a mão errada, disse o Despachante, se soubessem que você era canhoto.

Deixei o bestalhão falando sozinho. Fui ao hotel onde o freguês estava hospedado, esse era o nome, freguês, que a gente dava para o cara que ia ser apagado, e chamei a minha namorada para ficar comigo na campana.

Não gosto de chumbar ninguém, mas é o meu trabalho, o Despachante um dia me disse que leu num livro que o homem só precisa de duas coisas, de foder e de trabalhar, mas eu só precisava era de foder, trabalhar é uma merda. Mas eu uso um disfarce, para todo mundo eu sou vendedor de produtos de informática, e carrego sempre uma maleta de couro cheia de panfletos.

Antes de irmos para o hotel a minha namorada chegou no meu apartamento e tirou a roupa e o corpo branco dela encheu de luz o quarto escuro e eu olhei a bunda dela para ver se tinha marca de biquíni e de sol, ela sabia que se pegasse uma gota de sol eu ia encher ela de porrada, mas a bunda dela estava mais branca que o carro da ambulância.

O nome dela era Belinha, tinha dezoito anos, gostava de mim porque eu era bandido e sabia que o meu tesão era verdadeiro, ela desprezava esses caras que tomavam pílulas pro pau ficar duro, dizia que não podia amar homens desse tipo fingidor. E ela chupou o meu pau e eu fiz ela ficar ajoelhada na cama e chupei a boceta dela, ela gostava de ser chupada assim, eu enfiava a língua lá dentro e às vezes ela pedia para eu enfiar o nariz e a boceta dela era cheirosa e eu enfiava o nariz. Esqueci de dizer que além de pau grande eu tenho nariz grande. Depois que eu enfiava o pau e ela gozava, era assim o começo.

Ela não sabia o tipo de trabalho que eu fazia, achava que tinha contrabando no meio ou droga e pedia para ver minhas ferramentas e dizia que gostava de namorar bandido, mas eu não podia explicar  o meu serviço pra ela, eu mesmo não sabia bem o que estava por trás de tudo, o Despachante me chamava e dizia que tinha um serviço e me dava a ficha do freguês, às vezes era um cara importante que tinha nome no jornal, já teve até gringo. Eu era bem pago, de confiança, estavam ali como prova os dentes postiços na minha boca, a cicatriz nos cornos e o dedo quebrado curvo como um pedaço de arame grosso.

Minha namorada era moça de família importante cheia da grana, educada nos melhores colégios, falava francês, chamava-se Belinha ou Isabel ou Isabelinha ou Bel, eu preferia Belinha porque ela era a mulher mais linda do mundo. Estávamos no meu apartamento, esperando a hora de irmos para o hotel onde eu ia encontrar o freguês. Deitados na cama, depois de foder, ela disse me explica essa coisa de pistola e revólver, a diferença. Falei que no revolver as balas ficavam num cilindro que chamávamos de tambor, cada cartucho tendo a sua câmara de ignição e a cada disparo o cilindro girava colocando um novo cartucho alinhado com o cano. Tem tambores de seis cartuchos, o mais comuns, e de nove, dependendo do tamanho do revólver. A pistola, como esta Walther P99, semiautomática, tem um pente ou carregador com cartuchos  que se enfia no cabo, depois  de cada disparo o cartucho vazio é ejetado para fora e um novo cartucho é extraído automaticamente do carregador e colocado em posição para ser disparado. 

Ela também queria saber por que eu usava pistola e não revólver e eu expliquei, enquanto ela segurava a Walther como se fosse um rato morto, que as pistolas eram menores, mais leves, e mais seguras e além disso a pistola permite o uso do silenciador, esta porra aqui atarraxada no cano, silenciador de revólver não existe, quer dizer existe, uma merda grossa que envolve o tambor e faz a arma ficar um trambolho, ninguém usa, é coisa de museu.

Ela também perguntava o que eu sentia quando apagava um cara e eu respondia que não pensava em nada, igual um soldado na guerra, a  diferença é que eu não ganhava uma medalha quando matava o adversário.

Depois vesti um terno e ela uma roupa de moça fina e fomos para o hotel do freguês e ficamos no saguão esperando o cara chegar. A Belinha era uma garota elegante, na maneira de se vestir, de se sentar, de falar, quem olhasse para ela diria, esta é uma menina bem nascida, de boa família. Foi por isso que eu lhe disse que  a encheria de porrada se ela fizesse uma tatuagem, como andou falando.

O meu aspecto não fede nem cheira, sou um sujeito magro de nariz grande, aspecto inofensivo, usando aquele terno preto eu parecia um vendedor de seguros. O Despachante tinha informado que o freguês ia a uma reunião fora do hotel e devia chegar por volta de nove da noite. Eu tinha no bolso duas fotos do rosto dele.

Então o freguês apareceu. Senti certa surpresa ao vê-lo, não muita, sou puta velha e não levo susto. Mas o cara estava numa de cadeira de rodas, sendo empurrado por uma moça que parecia uma enfermeira. O puto do Despachante não me tinha dito que o freguês era aleijado. Eu disse para a Belinha, me espera aqui e entrei no elevador com a enfermeira e o aleijado.

Saltei no mesmo andar. O corredor estava vazio eu podia apagar os dois ali mesmo, mas o meu serviço é sempre feito com inteligência. Apanhei um papel do bolso e fingi que procurava ler alguma coisa nele, enquanto olhava como um míope os números das portas e seguia a cadeira de rodas. Esperei a enfermeira abrir a porta do apartamento e quando ela entrou empurrando a cadeira de rodas eu entrei junto. Ela arregalou o olho, mas antes que desse um pio eu dei um tiro na cabeça dela. Atiro sempre na cabeça.

Calma, disse o freguês, com as duas mãos espalmadas para mim, tranquilo, olhando nos meus olhos, vamos fazer negócio, eu pago mais, ele disse.

Dei dois tiros na cabeça dele. Depois desatarraxei o silenciador, coloquei a Walther na cintura, o silenciador no bolso, fechei o paletó, sai, fechei a porta, peguei o elevador e desci. Se eu tivesse sorte ia demorar muito até acharem os presuntos.

Chegando ao saguão peguei Belinha pelo braço e fomos embora, ninguém olhou para mim, se alguém olhasse na nossa direção só via a Belinha.

Entrei no carro e disse, vamos até a lagoa. Mas quando cheguei na lagoa não tive coragem de jogar a pistola na água, uma Walther P99, porra, a melhor coisa que a Alemanha deu ao mundo.

Vamos ao cinema, disse Belinha. Fomos ver um filme policial, ela era louca por filme policial, se um dia fosse mecornear ia ser com um tira.

Saímos do cinema à meia noite e Belinha disse que queria ir dançar na discoteca. Mas antes passamos no meu apartamento e eu guardei a Walther, depois de acariciá-la como se fosse um cachorrinho.

Na discoteca Belinha me chamou logo para dançar, ela dançando era uma coisa alucinante, mas eu dançava balançando como um galho seco de árvore numa ventania. Depois fomos tomar um drinque e ela perguntou o que eu pensei quando vi que ia matar um aleijado.  Nada, respondi, e você, o que pensou? Ela disse que achava mais justo matar um aleijado do que um cara inteiro que podia dançar e fazer aeróbica na esteira.

Quando voltamos para o apartamento, Belinha, na cama, disse que queria falar uma coisa séria comigo. O pai dela ameaçava suspender a mesada que lhe dava.

Foda-se a mesada do seu pai, eu lhe dou o dinheiro, eu disse.

Mas não é só isso, ele anda tão aborrecido comigo que disse que vai doar para associações de caridade todo o dinheiro que tem nos bancos, que quando morrer não vou herdar um tostão.

Foda-se o dinheiro do seu pai, eu sustento você.

Cara, é muito dinheiro, ela disse, acho uma crueldade isso, eu tenho só dezessete anos, vou durar no mínimo mais uns sessenta anos, já imaginou, sessenta anos na miséria?

Já disse que sustento você, insisti.

Ela me olhou pensativa e disse benzinho, eu te amo, mas quem garante que você, nesse seu trabalho vai, vai...  Ela ficou calada e eu terminei o pensamento dela: quem diz que eu vou ficar vivo muito tempo, não é isso? Ela respondeu, é isso, sinto muito, mas é isso. Em seguida me deu uma porção de beijinhos e disse que me amava, e disse ainda que tinha uma proposta para me fazer.

Deixa para amanhã, eu disse, vamos dormir, o dia já vai raiar, se o dia começar a raiar eu não consigo dormir. Tirei a roupa, fiquei de cueca, deitei na cama, ela ficou sentada na poltrona. 

Quando acordei Belinha continuava sentada na poltrona. Não consegui dormir, disse, posso falar agora? 

Falar o quê? Na proposta, ela respondeu.

Fala, eu disse.

Ela levantou-se da poltrona e sentou-se ao meu lado, na cama. Quero que você mate o meu pai.

Fiquei calado. Matar o pai, pensei, porra, a gente pode matar todo mundo, menos o pai e a mãe da gente.

Pensa bem, eu disse, e ela respondeu passei a noite pensando nisso, e a semana toda, não tem mais nada que pensar, qual é o problema?, desde que te conheço você já matou  umas cinco pessoas, ontem matou um aleijado, e está com escrúpulos de matar o filho da puta do meu pai que quer me deixar na miséria? Se você mandar eu pular da ponte eu pulo e eu te peço uma coisinha à toa e você reluta em me atender, é assim que você me ama?

Ela curvou-se sobre mim, tirou a minha cueca e começou a chupar o meu pau. Está bom?

Umas quinhentas mulheres já chuparam o meu pau, mas nenhuma tinha a boca tão enfeitiçada  quanto ela. Está bom? Depois de repetir isso, ela parou, sentou-se na cama e disse, se você não matar o meu pai eu vou deixar você, vai ter que arranja outra garotinha pra foder.

Outra garotinha igual a ela não existia no mundo inteiro. Mas Belinha querer matar o pai fazia ela ficar feia e fez o meu pau murchar.

Vou pensar, eu disse.

Te dou uma semana, ela disse.

Acampanei o pai dela durante essa semana. Era um homem alto de cabelos brancos, bonito, todo dia saía de casa e pegava o carro com motorista que ficavam em frente à casa dele. Um dia, antes dele pegar o carro, eu me aproximei dele e disse, desculpe, eu não sou daqui, como é que vou para o centro da cidade? Ele respondeu, estou indo para lá, lhe dou uma carona, entre no carro, por favor.

Ficamos conversando dentro do carro, eu disse que era de Minas e estava procurando emprego, podia ser de servente, qualquer coisa, eu precisava trabalhar e ele me deu um cartão e escreveu na costas um nome. É a dona Estela, a minha secretária, vou dar instruções a ela para procurar uma colocação para o senhor, passe nesse endereço amanha pela manhã e fale com ela. Achei que era hora de saltar e disse vou ficar por aqui, muito obrigado amanhã passo lá.

Saltei do carro e fui andando pela rua, pensando. Quando cheguei ao meu apartamento tinha um recado de Belinha na secretária eletrônica, pedindo para eu ligar para ela.

Como é?, ela perguntou.

Estou armando a coisa, eu disse, não vai demorar, faço o serviço por estes dias.

Vou passar aí mais tarde, disse Belinha, vou aí te dar o meu cuzinho.

Normalmente aquilo me excitava, mas nesse dia, não sei por que, foi desagradável. Hoje eu não posso, tenho um encontro com o Despachante.

No dia seguinte fui procurar a dona Estela. Ela foi muito amável e disse que tinha arranjado uma colocação para mim, de motorista, para eu levar os documentos para ela o mais rápido possível e neste momento o pai de Belinha entrou na sala de espera e bateu nas minhas costas perguntando tudo bem, está precisando de alguma coisa, algum dinheiro adiantado? Não doutor, muito obrigado.

Quando cheguei ao meu apartamento eu contei para Belinha essa história toda e disse que apagar o pai no escritório ia ser difícil, tinha que ser na rua ou na casa dele.

Eu arranjo uma chave da casa para você, disse Belinha, vou aí pra gente brincar um pouco, quero te chupar todo.

Hoje também não é possível, eu disse.

Caramba, disse Belinha, estou com saudade desse pau grande.

Aconteceu uma encrenca, eu disse, tenho outro encontro com o Despachante para descascar o abacaxi.

Ela me deu uma chave.

E os empregados? perguntei. 

Não se preocupe, eles ficam num apartamento sobre a garagem.

Liguei para Belinha e perguntei, hoje à noite está bom?

Está, ela respondeu, ele sempre toma uma pílula para dormir, por volta das onze. Chega à meia-noite, mas quando você chegar nós antes vamos para o meu quarto, brincar um pouco.

Cheguei precisamente à meia noite, a Walther com o silenciador no meu bolso. Quando entrei Belinha estava em pé na sala, me esperando. Subimos as escadas. O quarto dele é aquele lá, o meu é aqui, vem. Entramos no quarto dela e logo Belinha se desnudou e perguntou o que você quer, minha bundinha?, quer que eu chupe? quer me chupar?, o que você quiser eu quero.

Aquela conversa não tinha mais graça para mim, antes me excitava, agora me dava um certo nojo. Ela deitou-se de barriga para baixo, mostrando a bunda, não havia no mundo, no mundo inteiro, bunda mais bonita que aquela e ela sabia disso. Me aproximei de Belinha, tirei a Walther do bolso e disparei na cabeça dela, bem na nuca, para ela morrer de maneira instantânea e sem dor. Depois cobri o corpo dela com um lençol e sai, fechando a porta da casa.  Como é que alguém pode querer matar o pai ou a mãe?

A Walther agora estava quente mesmo. Fui até a lagoa e fiquei ali sentado, sem coragem de jogar aquela joia na água, pensando. O dia começou a raiar e eu senti que alguma coisa estava acontecendo comigo, estava com vontade de chorar, mas chorar era coisa de viado e eu não chorei. Peguei a Walther e joguei ela o mais longe que podia. A pistola entrou na água sem fazer muito barulho. O sol estava tão branco que doía nos meus olhos.