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Join us for World in Verse: A Multilingual Poetry Reading and Celebration of the Winners of the Poems in Translation Contest. Tuesday, September 17 at 7:00 PM | Word Up Community Bookshop, 2113 Amsterdam Avenue, New York
from the December 2018 issue

Quatro Poemas

Retina Negra

Sou preta fujona
Recuso diariamente o espelho
Que tenta me massacrar por dentro
Que tenta me iludir com mentiras brancas
Que tenta me descolorir com os seus feixes de luz

Sou preta fujona
Preparada para enfrentar o sistema
Empino o black sem problema
Invado a cena

Sou preta fujona
Defendo um escurecimento necessário
Tiro qualquer racista do armário
Enfio o pé na porta e entro

 

O tempo

O tempo
 é uma entidade
que carrego comigo
O tempo e seus cordões
Estão enrolados em mim desde o umbigo
Ele tem como seu oposto complementar
O espaço entre o tempo e suas escolhas
O tempo, senhor dos horários
Reina soberano
Tênue, em um fio de prata
O tempo a gente não mata
É ele o matador.

 

Propaganda enganosa

Na primeira vez em que beijei
Foram as minhas amigas que beijaram
Elas inventaram um gosto, um jeito, um cheiro
Meus lábios não estavam

Na primeira vez em que beijei
O príncipe foi escolhido pelas garotas sonhadoras
Pra mim era um tolo
Um sapo, um dragão que em mim cuspiu o seu fogo

Não sei como foi
Não viram os meus olhos cerrados
Eu não estava lá.

 

Não vou mais lavar os pratos
 
Não vou mais lavar os pratos
Nem vou limpar a poeira dos móveis
Sinto muito
Comecei a ler
Abri outro dia um livro e uma semana depois decidi
Não levo mais o lixo para a lixeira
Nem arrumo a bagunça das folhas que caem no quintal
Sinto muito
Depois de ler percebi a estética dos pratos
a estética dos traços, a ética, a estática
Olho minhas mãos quando mudam a página dos livros
Mãos bem mais macias que antes
Sinto que posso começar a ser a todo instante
Sinto. Qualquer coisa
Não vou mais lavar. Nem levar
Seus tapetes para lavar a seco
Tenho os olhos rasos d’água
Sinto muito
Agora que comecei a ler quero entender
O porquê, por quê?
E o porquê
Existem coisas
Eu li, e li, e li
Eu até sorri
E deixei o feijão queimar...
Olha que o feijão sempre demora a ficar pronto
Considere que os tempos agora são outros...
Ah, esqueci de dizer
Não vou mais
Resolvi ficar um tempo comigo
Resolvi ler sobre o que se passa conosco
Você nem me espere
Você nem me chame
Não vou
De tudo o que jamais li, de tudo o que jamais entendi
Você foi o que passou
Passou do limite, passou da medida, passou do alfabeto
Desalfabetizou
Não vou mais lavar as coisas e encobrir a verdadeira sujeira
Nem limpar a poeira e espalhar o pó daqui para lá e de lá para cá
Desinfetarei as minhas mãos e não tocarei suas partes móveis
Não tocarei no álcool
Depois de tantos anos alfabetizada
Aprendi a ler
Depois de tanto tempo juntos
Aprendi a separar
 
Meu tênis do seu sapato
Minha gaveta das suas gravatas
Meu perfume do seu cheiro
Minha tela da sua moldura
Sendo assim, não lavo mais nada
E olho a sujeira no fundo do copo
 
Sempre chega o momento
De sacudir, de investir, de traduzir
Não lavo mais pratos
Li a assinatura da minha lei áurea escrita em negro maiúsculo
Em letras tamanho 18, espaço duplo
Aboli
 
Não lavo mais os pratos
Quero travessas de prata
Cozinhas de luxo
E jóias de ouro
Legítimas
 
Está decretada a lei áurea

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