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from the December 2018 issue

Vozes insurgentes: Panorama da Literatura Afro-brasileira

Sou uma pesquisadora que escolheu estudar a produção literária de escritoras negras e escritores negros na Literatura Brasileira não como um mero exercício de análise, uma mera pesquisa acadêmica, mas como um compromisso ético e político. Ressalto esse aspecto para afirmar que sou uma estudiosa diretamente envolvida com os sujeitos e objetos de minha pesquisa. Por isso, considero um exercício prazeroso e, ao mesmo tempo desafiador, atender a proposta de fazer um panorama da literatura produzida por escritoras negras e escritores negros no Brasil. No critério de seleção das autoras e autores que serão inseridos nesse texto, considerei a relevância destes/as noprocesso de formação e consolidação da Literatura afro-brasileira.1

Escrevo na primeira pessoa do singular porque o meu texto está carregado de uma subjetividade intrínseca a todo ser humano e não acredito em imparcialidade no discurso crítico literário ou de qualquer outra área de conhecimento. A opção em redigir esse texto na primeira pessoa é, assim, um reflexo do meu posicionamento como uma intelectual negra, ativista de movimentos sociais, especialmente, o Movimento Negro. Uma pesquisadora que busca romper com algumas imposições da academia, produzindo uma pesquisa que se apresenta como um ato de protesto, uma manifestação política, tanto na forma como em seu conteúdo. 

 No Brasil, país que tem mais de 50% da população formada por pessoas negras2, a literatura estudada dentro das escolas e universidades tem cor, sexo e classe social. É uma literatura produzida por homens, brancos, pertencentes a certa elite econômica e intelectual3.  O ensino de literatura no Brasil também é branco e embranquecido, ou seja, um corpo docente formado em grande parte por professores/as brancos/as, em grande parte dos casos, pesquisa e ensina uma literatura produzida por escritores/as do mesmo perfil dos pesquisadores/as. Os nomes que apresentarei ao longo desse texto são desconhecidos por grande parte dos/das leitores/as e também dos/das pesquisadores/as brasileiros/as, que, em sua maioria, supervalorizam os textos canônicos, em detrimento daqueles que consideram marginais e/ou marginalizados.  Este ensaio busca, portanto, contribuir para o ecoar de vozes por muito tempo silenciadas. Vozes de corpos invisibilizados e subjugados por força do racismo - tão presente nessa terra tropical - e que muitos/as, sobretudo os racistas, ainda insistem em chamar de democracia racial. A reflexão de Débora Almeida, escritora, atriz, professora e pesquisadora, nos ajuda a pensar sobre as discussões levantadas no decorrer deste ensaio:

Será que queremos, simplesmente, ocupar os espaços ou queremos afirmar uma identidade negra? Há um modo de falar negro, um modo negro de combinar as palavras? Será que os conflitos de um personagem negro são os mesmos de um personagem branco, índio ou japonês? Isso tudo tem a ver com a questão sobre a identidade que queremos afirmar e o espaço político que queremos ocupar. [...] Fazer literatura negra em um país como o Brasil é fazer política. Por isso, quando escrevemos nossos textos e personagens, temos que pensar em que tipo de espaço eu, negra e negro brasileiro, reivindico com a minha fala, que espaço quero ocupar nessa sociedade branca, racista, machista e elitista, dentro desse sistema capitalista? (ALMEIDA, 2016, 133). 

O caso Machado de Assis é um exemplo interessante para compreendermos, ao mesmo tempo, um pouco da história da Literatura afro-brasileira e o funcionamento das relações raciais no Brasil. Machado de Assis é considerado por muitos estudiosos como o maior escritor da Literatura Brasileira. Assis nasceu no ano de 1839, no Morro do Livramento, estado do Rio de Janeiro. Autor de poemas, contos, romances, peças de teatro, crônicas, críticas literárias, dentre outros, escreveu as suas primeiras obras no período do Romantismo brasileiro, mas destacou-se no Realismo. Machado de Assis é considerado o precursor do Movimento Realista no Brasil, através da publicação do romance Memórias Póstumas de Brás Cubas(1881). Nesta narrativa original, Assis nos apresenta um personagem-narrador já morto, rememorando alguns acontecimentos que marcaram a sua vida. A linguagem marcada por uma dose de sarcasmo e ironia e a crítica ferrenha à sociedade em que vivia são marcas dos textos machadianos. Após a publicaçãode Memórias Póstumas de Brás Cubas, Machado de Assis lançou muitas outras obras ficcionais, dentre elas, os romances Quincas BorbasEsaú e JacóMemorial de Aires eDom Casmurro, certamente, um dos livros mais polêmicos do autor. Machado de Assim é ainda o fundador da Academia Brasileira de Letras. Além de suas produções literárias já canonizadas, destacamos dois aspectos relevantes ao falarmos da vida e obra de Machado de Assis. Primeiro é que durante muito tempo negou-se o fato de Machado de Assis ser um homem negro. As imagens dos livros didáticos representavam o autor como uma pessoa branca ou embranquecida. Em 2011, a Caixa Econômica Federal, um dos maiores bancos brasileiros, levou ao ar uma propaganda televisiva que apresentava ao telespectador um ator branco4, interpretando Machado de Assis. Integrantes do Movimento Negro fizeram duras críticas ao banco que, depois da polêmica, retratou-se publicamente, tirou a propaganda do ar e, após alguns dias, exibiu uma nova propaganda em que Machado de Assis era representado por um ator que tinha uma cor igual a do escritor, ou seja, um ator negro. O “equívoco” da Caixa Econômica nos revela um dos tentáculos que sustentam o racismo: a incapacidade de enxergarque as pessoas negras são capazes de produzir um trabalho intelectual. A incapacidade de nos enxergar como agentes produtores de conhecimento. O país da tão famigerada democracia racial tem dificuldades de aceitar que um dos seus maiores escritores era um homem negro5. As relações raciais no Brasil, tema abordado por Machado de Assis em muitos de seus textos ficcionais, será um tema recorrente na produção literária afro-brasileira, mesmo antes do surgimento do autor das Memórias Póstumas de Brás Cubas

Nesse contexto, a Literatura afro-brasileira, desde a sua origem, assume o compromisso de romper com o “processo de alienação racista,"6 processo muitas vezes reforçado pelos textos literários produzidos por escritoras e escritores brancos, que em suas obras reproduziam estereótipos negativos a respeito dos negros, representando-os, quase sempre, como personagens desprovidos de inteligência. Esses personagens eram colocados em posição de subalternidade em relação aos brancos, tendo como principal característica uma sexualidade excessiva que beirava o animalesco, sobretudo, quando se tratava de personagens femininas.       

No ensaio “Literatura negra: uma poética de nossa afro-brasilidade” (2009), Conceição Evaristo - importante escritora, poeta e intelectual afro-brasileira - reflete sobre o modo negativo como as personagens negras foram (e ainda são representadas) em grande parte dos textos produzidos por escritores/as brancos\as no Brasil. De acordo com a estudiosa: 

A ficção [brasileira] ainda se ancora nas imagens de um passado escravo, em que a mulher negra era considerada só como um corpo que cumpria as funções de força de trabalho, de um corpo-procriação de novos corpos para serem escravizados e/ou de um corpo-objeto de prazer do macho senhor. [...] Percebe-se que a personagem feminina negra não aparece como musa, heroína romântica ou mãe. Mata-se no discurso literário a prole da mulher negra, não lhe conferindo nenhum papel no qual ela se afirme como centro de uma descendência. (EVARISTO, 2009, p.23-24).

A literatura produzida por escritoras e escritores afro-brasileiros vai romper, como afirma Cuti, com o processo de alienação racista, operado na maioria dos textos canonizados que representam negativamente os sujeitos negros, especialmente as mulheres negras, como ressaltado por Conceição Evaristo. O eco produzido nos textos dos autores/as negros/as, eco que arrebenta a máscara do silêncio, ressoará de maneira potente nos textos de Maria Firmina dos Reis e Luiz Gama. Considerados os precursores da Literatura afro-brasileira, Firmina e Gama vão produzir textos nos quais deixam “transparecer um posicionamento diferenciado pela construção de um sujeito étnico-negro. No interior do texto, portanto, “percebe-se que o ponto de emanação do discurso reivindica para si a identidade com os discriminados e não com os discriminadores” (CUTI, 2010, p. 63).  

No contexto de produção de sua época, Maria Firmina dos Reis surgiu como uma voz potente. Em 1859, vinte e nove anos antes da assinatura da Lei Áurea, lei que supostamente aboliu a escravatura do Brasil, Firmina dos Reis publicou o romance Úrsula. Esta obra é considerada transgressora não apenas por ser escrita por uma mulher negra, ainda no período escravocrata, no estado do Maranhão, Nordeste do Brasil. A transgressão da obra de Maria Firmina dos Reis se dá, sobretudo, pelo audacioso enredo. Em Úrsula, a escritora constrói personagens negros que mesmo não sendo protagonistas da história ganham destaque, pois a subjetividade destes é delineada com profundez, “permitindo ao leitor não apenas ser levado pela comiseração, mas também confrontar-se com o tolhimento da humanidade dos escravizados” (CUTI, 2010, p. 80). No romance de Maria Firmina dos Reis, dentre os personagens destacados, nos chama a atenção a velha Suzana. Durante a narrativa, Suzana reflete sobre o martírio vivido pelos negros africanos, brutalmente arrancados de sua terra para serem escravizados no Brasil: 

Quando me arrancaram daqueles lugares, onde tudo me ficava – pátria, esposo, mãe e filha, e liberdade! Meu Deus! O que se passou no fundo de minha alma, só vós o pudeste avaliar!...

Meteram-me a mim e a mais trezentos companheiros de infortúnio e de cativeiro no estreito e infecto porão de um navio. Trinta dias de cruéis tormentos, e de falta absoluta de tudo quanto é mais necessário à vida passamos nessa sepultura até que abordamos as praias brasileiras. Para caber a mercadoria humana no porão fomos amarrados em pé e para que não houvesse receio de revolta, acorrentados como animais ferozes das nossas matas, que se levam para recreio dos potentados da Europa. Davam-nos a água imunda, podre e dada com mesquinhez, a comida má e ainda mais porca: vimos morrer ao nosso lado muitos companheiros à falta de ar, de alimento e de água (REIS, 2017, p. 103).  

No mesmo ano em que Maria Firmina dos Reis lançou o romance Úrsula, 1859, Luiz Gama publicou Primeiras trovas burlescas de Getulino. Nesta obra poética, escrita no período do Romantismo, fica demarcado o discurso crítico do poeta e jornalista à escravidão vigente. Nos seus poemas, Luiz Gama “traça um lugar diferenciado de emanação do discurso e demarca um ponto de subjetividade não apenas individual, mas coletivo” (CUTI, 2010, p. 66-67). O autor foi um dos mais importantes abolicionistas de sua época, sendo um dos primeiros negros brasileiros a lutar contra a ideologia do branqueamento da sociedade brasileira. Tragoo excerto de uma da carta escrita por Luiz Gama, endereçada a Lúcio de Mendonça, datada de 25 de Julho de 1880, que revela a força do discurso antirracista do escritor: 

Em nós, até a cor é um defeito.
Um imperdoável mal de nascença,
o estigma de um crime.

Mas nossos críticos se esquecem
que essa cor, é a origem da riqueza
de milhares de ladrões que nos
insultam; que essa cor convencional
da escravidão tão semelhante
à da terra, abriga sob sua superfície
escura, vulcões, onde arde
o fogo sagrado da liberdade.

(GAMA, 1880).

A denúncia das agruras vivenciadas pelos negros no Brasil, inscrita nas linhas insurgentes de Maria Firmina dos Reis e Luiz Gama, também se apresentará com expressividade, ainda no século XIX, nos poemas de Cruz e Sousa. Considerado o poeta mais importante do Simbolismo no Brasil, Cruz e Sousa chamou a atenção dos leitores e críticos com a publicação da prosa-poética “Emparedado”, último texto do seu livro Evocações(1898). No poema em questão, o eu-lírico “antevê que o progresso da população negra e sua maior participação nas atividades até então destinadas apenas aos não negros (brancos e mestiços) enfrentarão as “paredes” que se elevam para barrar-lhe a caminhada” (CUTI, 2010, p. 69). Na concepção de muitos críticos literários, “Emparedado” é uma espécie de testamento do escritor, um grito de dor e desespero contra o sistema de opressão racista que o aprisionava. Destaco um trecho desta prosa-poética de Sousa que considero bem representativo de sua produção: 

Ah! esta minúscula humanidade, torcida, enroscada, assaltando as almas com a ferocidade de animais bravios, de garras aguçadas e dentes rijos de carnívoro, é que não pode compreender-me.

[...]

O que tu podes, só, é agarrar com frenesi ou com ódio a minha Obra dolorosa e solitária e lê-la e detestá-la e revirar-lhe as folhas, truncar-lhe as páginas, enodoar-lhe a castidade branca dos períodos, profanar-lhe o tabernáculo da linguagem, riscar, traçar, assinalar, cortar com dísticos estigmatizantes, com labéus obscenos, com golpes fundos de blasfêmia as violências da intensidade, dilacerar, enfim, toda a Obra, num ímpeto covarde de impotência ou de angústia. (CRUZ E SOUSA, 1995, p. 669-670). 

A denúncia do racismo, tema frequente nos textos críticos e literários dos autores afro-brasileiros do século XIX, será uma temática recorrente na literatura produzida pelo escritor Lima Barreto, no início do Século XX. Autor de textos ficcionais como romances e contos, Lima Barreto também escreveu artigos e crônicas. Além do racismo, os textos publicados por Barreto abordavam outros temas polêmicos, tais como: “corrupção na política, militares e a violência contra civis, violência contra a mulher, ostentação social, parcialidade da imprensa, literatos esnobes e hermetismo, feminismo, futebol e violência, depressão e loucura” (CUTI, 2011, p. 11). Dos temas apontados, o sofrimento provocado pelo racismo será constantemente abordado na literatura produzida por Lima Barreto. Essa temática já anunciada em seu primeiro romance Recordações do escrivão Isaías Caminha(1909), será apresentada com maior vigor em sua obra mais famosa, o romance Clara dos Anjos7.Em estudo sobre a Literatura produzida por escritores negros brasileiros, nos séculos XIX e início do Século XX, Cuti, escritor, poeta e pesquisador, concluiu que:

Para Luiz Gama e Cruz e Sousa e também Lima Barreto não interessava o silêncio, o acobertamento completo de sua psique, porque o silêncio abafa e impede a realização de uma das funções básicas da literatura: a catarse, e no caso, a catarse do povo negro, que encontra também na literatura um caminho aberto para reconhecer a si mesmo, por meio da purgação da histórica humilhação sofrida e do expurgo de seus fantasmas criados pela discriminação racial. (CUTI, 2010, p. 74-75).

Se no começo do Século XX, temos a voz ácida e contumaz de Lima Barreto, tocando através dos seus textos literários ou jornalísticos na ferida aberta do racismo à brasileira, em meados do Século XX, nos deparamos com a voz afiada da escritora Carolina Maria de Jesus, voz fundamental para a divulgação das letras pretas fora do Brasil. Leitora voraz e escritora compulsiva, Carolina tornou-se conhecida na década de 1960, com a publicaçãodo seu livro mais famoso Quarto de desejo: diário de uma favelada. Nesta obra, a autora que morava em um barraco na Favela do Canindé, localizada na cidade de São Paulo- e que criava sozinha os três filhos, trabalhando como catadora de papel - relata o cotidiano dos moradores da Favela, denunciando a miséria, violência, vícios e doenças que acometiam a população do local. No período em que foi publicado, Quarto de Despejoalcançou um estrondoso sucesso no mercado editorial, sendo vendido mais de dez mil exemplares do livro, em uma semana, apenas na cidade deSão Paulo. Na ocasião, a obra foi traduzida em mais de vinte idiomas, alcançando uma média de quarente países, da América Latina, Ásia e Europa. As reflexões da autora são profundas, revelando a sua consciência social e política e sua faceta de intelectual, inconformada com a desigualdade que separava os habitantes esquálidos do Canindé dos moradores abastados que habitavam os bairros luxuosos da cidade de São Paulo.  Em uma das passagens do seu Diário, Carolina de Jesus explica porque considera a favela um “Quarto de Despejo”: 

Quando estou na cidade tenho a impressão que estou na sala de visita com seus lustres de cristais, seus tapetes de viludos, almofadas de sitim. E quando estou na favela tenho a impressão que sou um objeto fora de uso, digno de estar em um quarto de despejo. [...] Sou rebotalho. Estou no quarto de despejo, e o que está no quarto de despejo ou queima-se ou joga-se no lixo8. (JESUS, 1995, p. 33).

Dentre os vários temas espinhosos abordados na obra de Carolina Maria de Jesus, alguns aqui já apontados, a fome aparece de maneira insistente, como se fosse mais uma personagem do livro. O excerto de Quarto de Despejo, em realce abaixo, aponta para a crítica ácida feita pela autora para o grave problema social que atingia a sua família e a muitos outros moradores da Favela: 

13 de maio de 1958

Hoje amanheceu chovendo. É um dia simpático para mim. É o dia da Abolição. Dia que comemoramos a libertação dos escravos. [...] Eu tenho tanta dó dos meus filhos. Quando eles vê as coisas de comer eles brada:

- Viva a mamãe!

A manifestação agrada-me. Mas eu já perdi o hábito de sorrir. Dez minutos depois eles querem mais comida [...]. Choveu, esfriou. É o inverno que chega. E no inverno a gente come mais. A vera começou a pedir comida. E eu não tinha. Era a reprise do espetáculo [...]. Era 9 horas da noite quando comemos. E assim, no dia 13 de maio de 1958 eu lutava contra a escravatura atual – a fome! (JESUS, 1995, p. 27). 

O diário de Carolina Maria de Jesus é um manifesto político contra as inúmeras formas de opressõesa que o povo favelado era submetido. A escritora tinha plena compreensão do poder da palavra e dos seus escritos: “Os políticos sabem que eu sou poetisa. E que o poeta enfrenta a morte quando vê seu povo oprimido” (JESUS, 1995, p. 35). A escrita insatisfeita Carolinade Jesus é feroz, mas cheia de poeticidade9. O fragmento destacadoa seguir é um exemplo do lirismo que brota mesmo na ferocidade dos escritos da autora: “A noite está tépida. O céu já está salpicado de estrelas. Eu que sou exótica gostaria de recortar um pedaço do céu para fazer um vestido (JESUS, 1995, p. 28). 

Carolina Maria de Jesus escreveu e publicou outras obras além de Quarto de Despejo10. Ela transitou habilmente entre a produção em verso e prosa, transitou entre os mais diversos gêneros literários.  A autora faleceu no ano de 1977, esquecida em uma chácara, no interior de São Paulo. A sua trajetória é um percurso que se assemelha a de tantas outras mulheres negras brasileiras, escritoras ou não. A história de Carolina Maria de Jesus11, de certo modo, é uma síntese das desigualdades de gênero, raça e classe tão presentes na sociedade brasileira.  

A publicação da série Cadernos Negros, no ano de 1978, pode ser consideradocomo um relevante marco para o processo de consolidação e divulgação da Literatura Afro-brasileira. 

OsCadernos Negros surgiram em 1978, em meio a um clima social efervescente, dentro do qual pontificavam greves e protestos estudantis. A criação do MNUCDR (Movimento Negro Unificado Contra a Discriminação Racial, depois somente MNU) dava-se do lado do campo de batalha dos setores progressistas, os quais contestavam o governo militar e exigiam liberdades democráticas. Com a criação do MNU, a luta contra o preconceito racial iria ser reequacionada. (RIBEIRO; BARBOSA, 2008, p. 11). 

A proposta de publicação dos Cadernos Negrospartiu dos escritorese militantes Cuti (Luiz Silva) e Hugo Ferreira, responsável por sugerir o nome da coletânea. O primeirovolume da obra reuniu textos poéticos de oito autoresque dividiram os custos da publicação. Em novembro de 1978, a primeiraedição dos Cadernosfoi apresentada ao público, numa tiragem de mil exemplares. No ano de 1979 foi lançado o segundo volume dos Cadernos Negros, mas em vez de poemas, a antologia reuniu contos de 12 autores (CUTI, 2010). Desde então, os Cadernos Negrossão publicados ininterruptamente, sempre revezando entre coletâneas de contos e poemas. Em dezembro de 2017 foi lançado o quadragésimo volume da coletânea.

Símbolo de resistência das letras pretas na Literatura Brasileira, os Cadernos Negrosforam agregando cada vez mais escritoras e escritores, revelando muitos talentos que tiveram um primeiro contato com o público-leitor através dos textos publicados na Coletânea, até conseguirem publicar suas obras individuais. A escritora Conceição Evaristo é, certamente, um dos nomes de maior referência revelado pelos Cadernos. A autora nascida na cidade de Belo Horizonte, estado de Minas Gerais, no ano de 1946, publicou os seus primeiros textos nos Cadernos Negrosaos 44 anos. De acordo com Cuti, idealizador da coletânea:

A série Cadernos Negros, iniciada em 1978, ganhou um novo sopro identitário e um brilho especial de coragem e tratamento estético quando ela [Conceição Evaristo] chegou, em 1990. No volume 13 da coletânea, Conceição Evaristo fez desfilar em seis poemas os traços que seriam indeléveis em sua produção posterior: o apelo à terra natal, a identidade feminina, a ancestralidade, a esperança nas novas gerações, a memória como reserva de resistência e o amor que se esmera no querer. (CUTI, 2017).

Depois de publicar contos e poemas nos Cadernos Negros12, Conceição Evaristo lançou os romances Ponciá Vicêncio(2003) e Becos da Memória(2006). Em 2008, lançou Poemas da recordação e outros movimentos, seu único livro de poesia publicado até agora. Além dessas obras, Evaristo publicou três coletâneas de contos: Insubmissas lágrimas de mulheres(2011),Olhos D´água(2015), Histórias de leves enganos e parecenças(2016). Reconhecida pelos seus pares e conquistando um número cada vez maior de leitores, Conceição Evaristo é, certamente, a autora negra mais celebrada (e estuada) no Brasil atual13. De acordo com a pesquisadora Heloísa Toller Gomes, os textos literários de Evaristo: 

Equilibram-se entre a afirmação e a negação, entre a denúncia e a celebração da vida, entre o nascimento e a morte [...] Sem quaisquer idealizações, são recriadas com firmeza e talento as duras condições enfrentadas pela comunidade afro-brasileira (GOMES, 2016, p.236).  

Além de escritora e poeta, Conceição Evaristo se destaca como ensaísta e pesquisadora, tendo obtido o título de Doutora em Literatura Comparada pela Universidade Federal Fluminense – UFF (2011). As suas obras vem sendo traduzidas em vários idiomas e ganharam edições em países, tais como, Alemanha, Estados Unidos e França. Nos últimos anos, Evaristo tem sido contempladacom inúmeras homenagens e premiações. Em 2015, com a publicação do livro de contos Olhos D’água,Evaristo foi finalista do Prêmio Jabuti, o mais importante da Literatura Brasileira. A voz branda e imponente de Conceição Evaristo tem ecoado cada vez mais forte, ultrapassando paredes e muros, incomodando “os senhores da casa-grande em seus sonhos injustos14”.  Essa voz pode ser ouvida com potência em “Vozes-Mulheres”, o poema mais celebrado de Conceição Evaristo. Este texto é considerado uma espécie de “manifesto-síntese” da poética da autora mineira:

Vozes-Mulheres 
A voz de minha bisavó
ecoou criança
nos porões do navio.
ecoou lamentos
de uma infância perdida.
A voz de minha avó
ecoou obediência
aos brancos-donos de tudo.
A voz de minha mãe
ecoou baixinho revolta
no fundo das cozinhas alheias
debaixo das trouxas
roupagens sujas dos brancos
pelo caminho empoeirado
rumo à favela.

 

A minha voz ainda
ecoa versos perplexos
com rimas de sangue
e
fome.

 

A voz de minha filha
recolhe todas as nossas vozes
recolhe em si
as vozes mudas caladas
engasgadas nas gargantas.
A voz de minha filha
recolhe em si
a fala e o ato.
O ontem – o hoje – o agora.
Na voz de minha filha
se fará ouvir a ressonância
o eco da vida-liberdade.
(EVARISTO, 2008). 

Evaristo nomeia os seus textos literários de Escrevivências. Este conceito relaciona-se com o compromisso assumido por escritoras negras e escritores negros brasileiros de escreverem os seus textos poéticos ou ficcionais, a partir das suas vivências e das experiências da população negra em diáspora. O trecho de uma das entrevistas de Conceição Evaristo, que segue abaixo, contribui para uma melhor compreensão do conceito Escrevivência:

Eu quero marcar o lugar da diferença na concepção dos meus textos. [...] Eu concebo os meus textos a partir de minha condição de mulher negra. [...] A minha ficcionalização nasce a partir do espaço onde os meus pés estão fincados. E os meus pés estão fincados no lugar de mulher negra na sociedade brasileira, no lugar de mulher pobre na sociedade brasileira. (EVARISTO, 2017)15

Essa necessidade de escrever sobre as vivências é uma maneira das autoras e dos autores negros, marcadas por múltiplas violências, especialmente a racial, se fazerem ver e ouvir. Pensar no conceito de escrevivência é pensar também na escrita como uma forma de ativismo. A escrita politicamente comprometida de Conceição Evaristo é também característica de todas/os as/os escritoras/es que vêm publicando nos Cadernos Negros, ao longo dos últimos quarenta anos. Esse comprometimento foi assumido, em maior ou menor grau, por todos os autores e autores da Literatura Afro-brasileira a que nos referimos no decorrer deste ensaio, desde os seus precursores. 

Destacamos a relevância dos Cadernos Negrospara a divulgação inicial dos textos de grande parte dos escritores afro-brasileiros contemporâneos, a coletânea é, certamente, a mais importante, mas não é a única a revelar talentos na/da Literatura negro-brasileira. Tem surgido um número cada vez maior de pequenas editoras – Nandyala, Mazza, Pallas, Malê, dentre outras-, dedicadas a publicação de escritoras negras e escritores negros, em obras individuais ou coletivas, abrindo espaço para outras vozes também silenciadas como, por exemplo, a de autores/as indígenas. 

Como dito, nem todo/a autor/ negro/a brasileiro/a contemporâneo iniciou a carreira publicando nos Cadernos Negros. Do mesmo modo, temos episódios (ainda isolados) é importante ressaltar, de escritores/as afro-brasileiros/as que foram publicados em grandes editoras brasileiras. É o caso de Ana Maria Gonçalves, autora do romance histórico Um defeito de cor (2006), lançado pela Editora Record, uma das maiores do Brasil. A obra foi vencedora do prestigioso prêmioCasa de las Américas(2007). O livro grandioso pela quantidade de páginas: 952, resultado de uma minuciosa pesquisa de Gonçalves, é também grandioso pelo conteúdo, pela narrativa pungente, que conta a história de Kehinde, uma velha africana, numa saga de quase oitenta décadas, em busca do filho perdido. Fatos que marcaram a história do Brasil se misturam com a história de Kehinde, ou melhor, a história de Kehinde se mistura com a história do Brasil: escravidão, rebeliões, violências indizíveis, são ingrediente narrados de maneira original por Ana Maria Gonçalves16.

Além dos textos literários que, na seleção aqui feita, destacam-se como obras de grande relevância da Literatura Afro-brasileira, não posso deixar de mencionar o trabalho de fôlego Literatura e Afro descendência no Brasil: antologia crítica (2011),  organizado pelos pesquisadores Eduardo de Assis Duarte, da Universidade Federal de Minas Gerais, e Maria Nazareth Soares Fonseca, da Pontifícia Universidade Católica de Minas Gerais. A antologia reúne quatro volumes espessos, construídos com a colaboração de 61 pesquisadores, de 21 universidades estrangeiras e 06 brasileiras, refletindo sobre a produção de 100 autores afro-brasileiros, que produziram em diferentes contextos e espaços, desde o século XVIII ao século XXI. 

A discussão sobre a Literatura afro-brasileira nos leva a uma polêmica sempre em voga entre as estudiosas e os estudiosos desta produção literária.  Alguns críticos defendem que só pode ser considerada Literatura afro-brasileira aquela produzida por pessoas negras; outros defendem que a cor da pele do autor não é fator determinante para definir se o texto produzido é afro-brasileiro ou não, devendo-se considerar o conteúdo, a linguagem, a perspectiva, dentre outros aspectos. Nesse contexto, muitos defendem que se um autor branco mostrar empatiapelas pessoas negras e produzir um texto em que os personagens negros passem pelos dilemas já abordados neste ensaio, poderíamos considerar esse texto como pertencente à Literatura afro-brasileira. Nessa polêmica do que pode ou não ser considerada Literatura afro-brasileira, concordo com o posicionamento de Cuti, quando ele afirma, categoricamente, que a Literatura Afro-brasileira, ou como ele prefere, a Literatura Negro-brasileira tem que ser necessariamente produzida por pessoas negras.  Na concepção de Cuti: 

Uma das formas que o autor negro-brasileiro emprega em seus textos para romper com o preconceito existente na produção textual de autores brancos é fazer do próprio preconceito e da discriminação racial temas de suas obras, apontando-lhes as contradições e as consequências. Ao realizar tal tarefa, demarca o ponto diferenciado de emanação do discurso, o “lugar” de onde fala. (CUTI, 2010, p. 25). 

O pesquisador ainda ressalta: 

O ponto nevrálgico é o racismo e seus significados no tocante à manifestação das subjetividades negra, mestiça e branca. Quais as experiências vividas, que sentimentos nutrem as pessoas, que fantasias, que vivências, que reações enfim são experimentadas por elas diante das consequências da discriminação racial e da presença psíquica, o preconceito? Esse é o ponto! (CUTI, 2010, p. 39). 

A perspectiva, os temas, a linguagem, a construção dos cenários onde estão inseridos os personagens, dentre muitos outros aspectos, vão dizer desta dicção diferenciada dos/das autores/as afro-brasileiros/as ao abordarem temáticas, muitas vezes, já trabalhadas pela literatura canônica17. Quando escritores/as afro-brasileiros/as contam, por exemplo, a história de uma personagem negra violentada pelo racismo, eles/as estão falando de um tema que lhes é muito familiar. Mesmo que não tenham sido vítimas da violência que encenam, estes são marcados/as pelas memórias do racismo, devido ao contexto no qual foram socializados/as. De tal modo, quando os autores afro-brasileiros encenam em seus textos o sofrimento causado pela violência racista, mesmo quando a dor parece individual, ela é compartilhada por um coletivo que sofre com a mesma ferida. Ao falar sobre essa encenação da realidade a partir de “proximidades vivencias”, a escritora Miriam Alves18 assim se manifesta:

Eu acho que o tratamento literário que dou às minhas protagonistas [...] é existencialista, não como um diálogo interno fechado, e sim como um diálogo com a realidade existencial. Quase sempre, o drama da narrativa procura esclarecer como as personagens negras resolvem uma ação na trama e enfatizar que, para solucionar os problemas, são forçadas a refletir sobre a existência cotidiana e básica. Elas têm que tomar uma atitude, escolher uma direção qualquer. Todas elas são negras porque estou falando de uma proximidade vivencial; mesmo se eu escolher ambientar a história como ficção científica que se passe em Marte, estarei, com certeza, construindo essa ficção a partir das proximidades vivenciais e informativas. (ALVES, 2016, 178). 

Ao falarmos da produção literária dessas escritoras e escritores afro-brasileiros, estamos nos referindo, inevitavelmente, a uma autoria negra. Cuti, Conceição Evaristo, Miriam Alves, Cristiane Sobral e grande parte dos escritores e das escritoras que publicaram e publicam nos Cadernos Negrosreivindicam este lugar de fala, reafirmando a importância de se autodenominarem como escritores/as negras/os brasileiros/as, assumindo essa postura como um ato político. Esses/as escritores/as reivindicam também o lugar de intelectuais, questionando o espaço de subordinação historicamente pré-estabelecido para as pessoas negras no Brasil. Dessa forma, pensar numa autoria negra em solo brasileiro é refletir também sobre as estratégias que os/as escritores/as utilizam para inscreverem a sua produção dentro de um espaço de enunciação diferenciada:

O surgimento da personagem, do autor e do leitor negros trouxe para a literatura brasileira questões atinentes à sua própria formação, como a incorporação dos elementos culturais de origem africana no que diz respeito a temas e formas, traços de uma subjetividade coletiva fundamentados no sujeito étnico do discurso, mudanças de paradigmas crítico-literário, noções classificatórias e conceituação das obras de poesia e ficção. (CUTI, 2010, p. 11).

No decorrer desse ensaio, busquei traçar um breve percurso de algumas obras e alguns autores e autoras que constroem a Literatura Negro-brasileira, para alguns, Literatura Afro-brasileira, para outros19. Acredito que é importante discutir as terminologias porque elas são criadas para atender aos interesses e objetivos específicos de determinado grupo, mas, neste ensaio, prefiro evitar a discussão polêmica em torno desses conceitos. Por uma escolha pessoal, utilizo os termos Literatura Negro-brasileira e Literatura Afro-brasileira como sinônimos, plenamente consciente de que não existem sinônimos perfeitos. 

A Literatura Negro-brasileira e/ou Literatura Afro-brasileira compõe o grande mosaico que é a Literatura Brasileira. É a parte de um todo. Uma parte que, ainda hoje, é invisibilizada, marginalizada, subjugada. A produção literária de escritoras negras e escritores negros no Brasil, a despeito de todos os obstáculos impostos, brota resistente em meio ao concreto-asfáltico. A Literatura Afro-brasileira ocupa cada vez mais espaço, destruindo silêncios ensurdecedores, escurecendo as páginas brancas de uma história anêmica. A Literatura Negro-brasileira apresenta as perspectivas daquelas e daqueles, outrora silenciados (as), mas que já não se conformam com a versão de uma história única. 

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1. Certamente, a seleção feita não agradará a todos/as, que considerarão injusto a inclusão de alguns nomes bem como a ausência de outros.

2. De acordo com dados do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), divulgados em 24 novembro de 2017, 54% dos brasileiros se autodeclaram negros.

3. O livro Literatura Brasileira Contemporânea: um território contestado (2012), da pesquisadora Regina Dalscatagnè, revela dados impactantes sobre a literatura brasileira publicada nas grandes editoras. Depois de analisar 258 romances, publicados entre os anos de 1990 e 2004, pelas principais editoras do Brasil, Regina Dalcastagnè concluiu que quase três quartos dos romances estudados (72,7%) foram escritos por homens; 93,9% são brancos. O protagonismo das narrativas é também assumido, quase sempre, por um homem branco, representado como artista ou jornalista, os poucos personagens negros que surgem (quando surgem) são apresentado, quase sempre, como bandidos.

4. https://exame.abril.com.br/marketing/caixa-suspende-comercial-com-machado-de-assis-brancohttps://www.viomundo.com.br/voce-escreve/machado-de-assis-negro-na-propaganda-da-caixa-finalmente.html.

5. A antologia Machado de Assis Afrodescendente: escritos de caramujo (2007), organizada pelo professor Eduardo de Assis Duarte, apresenta posicionamentos de Machado de Assis sobre a escravidão e as relações raciais do Brasil do século XIX.

6. Expressão utilizada por Cuti no seu livro Literatura negro-brasileira(2010).

7. O romance Clara dos Anjosfoi concluído por Lima Barreto em 1922, ano do falecimento do escritor, sendo publicado postumamente em 1948.

8. O texto foi publicado respeitando a grafia original dos diários de Carolina Maria de Jesus. O que alguns consideram erro ortográfico, entendemos como estilísticada autora.

9. Em minha tese de doutorado “Corpos dilacerados: a violência em contos de escritoras africanas e afro-brasileiras (2018)” criei o conceito de Ferocidade Poética. Um conceito que se aplica ao modo singular como algumas escritoras afro-brasileiras encenam a violência em suas narrativas.

10. Além de Quarto de despejo, Carolina publicou mais quatro obras:Casa de Alvenaria, Pedaços de Fome, Provérbios,livros que tiveram pouca ou nenhuma visibilidade. Depois da sua morte, pesquisadores encontraram uma infinidade de textos inéditos escritos por ela. É uma média de cinco mil páginas, com textos literários dos mais diferentes gêneros, reunidas em 58 cadernos. Das obras póstumas da autora, destacamos os seguintes títulos: Diário de Bitita(1986), Meu Estranho Diário(1996), Onde estaes felicidade?(2014), Meu sonho é escrever(2018).

11. A publicação mais recente e, podemos dizer, a mais completa sobre a vida e obra de Carolina Maria de Jesus, foi lançada em março de 2018, pelo jornalista Tom Farias, intitulado Carolina: uma biografia.

12. Ao longo de sua trajetória nos Cadernos Negros, Conceição Evaristo publicou 28 poemas e 11 contos, saídos em 13 volumes da antologia, no período de 1990 a 2011.

13. Em entrevista recente, Conceição Evaristo falou sobre as engrenagens do racismo à brasileira e disse da necessidade de questionar as regras que a fizeram ser reconhecida somente aos 71 anos de idade. A entrevista completa pode ser encontrada neste link: https://www.bbc.com/portuguese/brasil-43324948.

14. “Da grafia-desenho de minha mãe um dos lugares de nascimento de minha escrita”, texto ensaístico de Conceição Evaristo que pode ser acessado neste link: http://nossaescrevivencia.blogspot.com/2012/08/da-grafia-desenho-de-minha-mae-um-dos.html.

15. Entrevista: O ponto de partida da escrita – Ocupação Conceição Evaristo 2017. Itaú Cultural. Disponível em: https://www.youtube.com/watch?v=3CWDQvX7rno. Acesso em 10 fev. 2018.

16. Depois de mais de dez anos do lançamento de Um defeito de cor, Ana Maria Gonçalves lançará brevemente o livro Quem é Josenildo?Uma mistura de romance policial e ficção científica.

17. O pensamento da estudiosa Luísa Lobo apresenta-se em conformidade com o ponto de vista de Cuti: “Poderíamos definir literatura afro-brasileira como a produção literária de afrodescendentes que se assumem ideologicamente como tal, utilizando um sujeito de enunciação próprio. Portanto, ela se distinguiria, de imediato, da produção literária de autores brancos a respeito do negro, seja enquanto objeto, seja enquanto tema ou personagem estereotipado (folclore, exotismo, regionalismo)” (Luísa Lobo 2007, p. 315).

18. Miriam Alves nasceu na cidade de São Paulo, no ano de 1952. Publica nos Cadernos Negros desde o ano de 1982, sendo uma das primeiras mulheres a ter os seus textos inseridos na série.  É autora dos livros: Momentos de Busca (1983) e Estrelas nos Dedos (1985), coletâneas de poemas. Mulher Matr(i)z (2011), coletânea de contos, além do romance Bará na trilha do vento (2015).

19. A pesquisadora Maria Nazaré Soares Fonseca busca amenizar a polêmica a respeito do que seria Literatura Negra ou Literatura Afro-brasileira, trazendo a seguinte definição: Literatura Negra: resignificação do termo negro, que historicamente em nossa sociedade se configurou como termo negativo; Literatura Afro-brasileira: fortalece a ideia da criação literária dos negros com a matriz africana; Literatura afrodescendente: duplo movimento – constituição de uma visão vinculada às matrizes africanas e busca por traduzir as mutações inevitáveis que essas heranças sofreram na diáspora (FONSECA, 2006, P.24).

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