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from the September 2021 issue

Afroinsularidade

"Afroinsularity" is one of two winning poems selected by Airea D. Matthews for the 2021 Words Without Borders—Academy of American Poets Poems in Translation Contest.

 

Words Without Borders · Poems in Translation Contest: "Afroinsularity," by Conceição Lima

Listen above to poet Conceição Lima read "Afroinsularity," in the original Portuguese

 

Deixaram nas ilhas um legado
de híbridas palavras e tétricas plantações,
engenhos enferrujados, proas sem alento,
nomes sonoros aristocráticos
e a lenda de um naufrágio nas Sete Pedras.

Aqui aportaram vindos do Norte,
por mandato ou acaso ao serviço do seu rei:
navegadores e piratas, negreiros, ladrões, contrabandistas,
simples homens, rebeldes, proscritos também, e infantes judeus
tão tenros que feneceram como espigas queimadas.

Nas naus trouxeram bússolas, quinquilharias, sementes,
plantas experimentais, amarguras atrozes,
um padrão de pedra pálido como o trigo
e outras cargas sem sonhos nem raizes,
porque toda a ilha era um porto e uma estrada sem regresso.
Todas as mãos eram negras forquilhas e enxadas.

E nas roças ficaram pegadas vivas
como cicatrizes — casa cafeeiro respira agora um escravo morto.

E nas ilhas ficaram
incisivas — arrogantes estátuas nas esquinas,
cento e tal igrejas e capelas
para mil quilómetros quadrados,
e o insurrecto sincretismo dos paços natalícios.
E ficou a cadência palaciana da ússua,
o aroma do alho e do zêtê dóchi
no tempi e na ubaga tela,
e no calulu, o louro misturado ao óleo de palma
e o perfume do alecrim e do mlajincon nos quintais dos luchans.

E aos relógios insulares se fundiram
os espectros — ferramentas do império
numa estrutura de ambíguas claridades
e seculares condimentos,
santos padroeiros e fortalezas derrubadas,
vinhos baratos e auroras partilhadas.

Às vezes penso em suas lívidas ossadas,
seus cabelos podres na orla do mar.
Aqui, neste fragmento de África
onde, virado para o Sul,
um verbo amanhece alto
como uma dolorosa bandeira.


© Conceição Lima. All rights reserved.

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